
Inveja - (Texto de Thiago de Mello Costa do Blog Tempestades Neurais )
Era um dia quente, muito sol, nenhuma nuvem no céu. O casal vinha andando sem pressa, abraçados. Transpiravam muito, ela trazia na mão uma garrafinha, também suada, com água gelada. Mesmo de longe, parecia que o assunto era extremamente divertido. Aqueles dois ignoravam completamente a temperatura escaldante e a falta de ventos para refrescar.
Vieram andando e se sentaram sob a sombra daquela enorme árvore, com seus vários troncos brotando do chão - ou seria descendo pelos galhos ? Estavam tão entretidos na conversa que nem se deram conta de que estavam embaixo de um dos cartões-postais da cidade. Haviam encontrado um oásis no meio do deserto e nem perceberam, continuaram a conversa. Limparam um pouco as folhas secas caídas sob a árvore e se sentaram sem se apoiarem em nenhum dos troncos-galhos.
De frente um pro outro, sentados no chão, bem no meio da enorme sombra projetada pela massa de folhas verdes sobre suas cabeças, rostos próximos. Sorriam constantemente, mostrando o branco dos dentes e o brilho dos olhos a cada sílaba pronunciada na conversa. Vez ou outra roçavam os lábios em beijos roubados e fugidios. Certo momento ela tira uma barra de cereal da bolsa, oferece, ele não quer. Come sua barrinha, calada, mas sorrindo e prestando atenção em cada palavra dele, como se ele fosse um messias a proferir as verdades do mundo.
Ficam lá por horas, nem se dando conta das pessoas que passam, nas idas e vindas das bicicletas, nas folhas que caem, o sol descendo rapidamente no horizonte, as sombras crescendo no chão. Apenas conversando, sorrindo um com o outro.
Não muito longe, um senhor que dava comida aos pombos, sentado solitariamente num banco do parque, observava aquela cena desde o começo sem obviamente ser percebido. Com o semblante mortificado, levanta-se com um olhar carregado de mágoa, o coração cheio de rancor. Vira as costas com visível inveja e vai sozinho pra sua casa sombria, repleta de objetos mofados, móveis velhos e lembranças de uma vida povoada por falsos afetos e profunda solidão.