10.10.08



Inveja - (Texto de Thiago de Mello Costa do Blog Tempestades Neurais )
Era um dia quente, muito sol, nenhuma nuvem no céu. O casal vinha andando sem pressa, abraçados. Transpiravam muito, ela trazia na mão uma garrafinha, também suada, com água gelada. Mesmo de longe, parecia que o assunto era extremamente divertido. Aqueles dois ignoravam completamente a temperatura escaldante e a falta de ventos para refrescar.

Vieram andando e se sentaram sob a sombra daquela enorme árvore, com seus vários troncos brotando do chão - ou seria descendo pelos galhos ? Estavam tão entretidos na conversa que nem se deram conta de que estavam embaixo de um dos cartões-postais da cidade. Haviam encontrado um oásis no meio do deserto e nem perceberam, continuaram a conversa. Limparam um pouco as folhas secas caídas sob a árvore e se sentaram sem se apoiarem em nenhum dos troncos-galhos.
De frente um pro outro, sentados no chão, bem no meio da enorme sombra projetada pela massa de folhas verdes sobre suas cabeças, rostos próximos. Sorriam constantemente, mostrando o branco dos dentes e o brilho dos olhos a cada sílaba pronunciada na conversa. Vez ou outra roçavam os lábios em beijos roubados e fugidios. Certo momento ela tira uma barra de cereal da bolsa, oferece, ele não quer. Come sua barrinha, calada, mas sorrindo e prestando atenção em cada palavra dele, como se ele fosse um messias a proferir as verdades do mundo.
Ficam lá por horas, nem se dando conta das pessoas que passam, nas idas e vindas das bicicletas, nas folhas que caem, o sol descendo rapidamente no horizonte, as sombras crescendo no chão. Apenas conversando, sorrindo um com o outro.
Não muito longe, um senhor que dava comida aos pombos, sentado solitariamente num banco do parque, observava aquela cena desde o começo sem obviamente ser percebido. Com o semblante mortificado, levanta-se com um olhar carregado de mágoa, o coração cheio de rancor. Vira as costas com visível inveja e vai sozinho pra sua casa sombria, repleta de objetos mofados, móveis velhos e lembranças de uma vida povoada por falsos afetos e profunda solidão.

11 comentários:

Thiago disse...

Tem alguns dedinhos seu por aí, né?!?!

Line disse...

alegria alheia incomoda...

Janaina Staciarini disse...

Ai que eu nunca nunca quero ser esse senhor.
Quero ser a menina da barra de cereais.
;)

Ana D disse...

Hiii jan, vc será sempre a menina da barra de cereais...rsrs....

Márcia(clarinha) disse...

Não, não era inveja, era dor de solidão, era medo do vazio, era saudade de alguém...[eu acho, rss]

lindo dia Anninhamiga
beijos

Su disse...

podemos usar a inveja pra fazermos algo de melhor pra nós mesmos, mas às vezes não percebemos isso..
bjosss!!!

Maria Tarot disse...

Todos os sentimentos podem ter um fundamento bom.

Jana disse...

Vamos ter os 7 pecados?

Que deus me guarde de ter esses olhos de mágoa, e que eu encontre uma árvore de boa sombra e uma garafinha de água!

beijos

DO disse...

Dá pra fazer muitas reflexões...

Beijos,ANA!

Thiago disse...

Uma linda escrita!! Inveja, coisa ruim demais isso!

Jullyana disse...

Ui!